PRÊMIO ENERGISA ARTES VISUAIS

Energisa

Amanda Mei

Estudos e Memórias Urbanas, 2012

Por Amanda Mei

“Construo o espaço destruindo o instantâneo, trabalhando com um novo tempo. (o tempo interferindo no espaço,o outro lado do tempo)”
A inversão da ordem dum espaço comum, como uma metáfora para a passagem do tempo.
Onde está o tempo?

Trata-se de um conjunto de pinturas e fotografias que tem como intuito aproximar diferentes técnicas e apresentar outros modos de perceber os espaços que nos circundam, onde se revelam sintomas das transformações presentes no ambiente urbano.

A seleção aqui apresentada compõe um arranjo inédito no qual as fotografias aparecem como testemunhas dos espaços corrompidos pelo tempo, como uma paisagem descontinua que se forma na memória e as pinturas resgatam alguns dos elementos vitais nos processos da transformação e da destruição do que está associado à memória.

As afirmações da presença, das mudanças e dos processos de desenvolvimento revelam-se através dos trabalhos e da articulação entre eles.



Braz Marinho

Por Fernando Cocchiarale

Ao ver a instalação Tô dentro. Tô fora, de Braz Marinho, lembrei-me imediatamente de outro trabalho – 1) De Dentro Para Fora 2) Simples......... – realizado, em 1970, pelo artista luso-brasileiro, Arthur Barrio. Montado sobre uma base, o trabalho se resumia a um televisor ligado em um canal qualquer e um lençol branco, que o cobria totalmente. Tratava-se de um objeto fechado em si mesmo, mas incapaz de reter as imagens que, bloqueadas por sua muralha translúcida, lhe escapavam permanentemente de dentro para fora, atravessando-a com fantasmagórica facilidade. A lembrança de Barrio, no entanto, é uma evocação por contraste, já que o trabalho de Marinho, especialmente concebido para a Galeria da Usina Cultural Energisa, foi pensado de um ponto de vista oposto.

Braz vem de uma trajetória marcada pelo construtivismo, de longa tradição no país. No entanto, seu processo criativo há certo tempo abriu-se, e algumas de suas construções acolheram, no espaço auto-referente da geometria, elementos icônicos.

Tô dentro. Tô fora resulta somente de imagens da Av. Epitácio Pessoa (no sentido praia), em João Pessoa, captadas em tempo real e projetadas na parede logo à esquerda da entrada da galeria, paralela à avenida. Integrada à sala, a projeção traz intencionalmente para dentro do espaço expositivo a paisagem urbana exterior que suas paredes bloqueiam. Oferece ao olhar do visitante, numa escala próxima à escala real, o ponto de vista externo, perdido desde a construção do prédio. Ao atravessar os muros de alvenaria por meio de imagens externas da cidade, onde a vida corre, e trazê-las para o cubo branco, destinado às imagens da arte, Tô Dentro. Tô fora derruba poética e visualmente essas fronteiras e potencializa ao limite sua inserção no espaço da galeria.



Laércio Redondo

Por Fernando Cocchiarale

Em Meditações Sobre Um Cavalinho de Pau, Ernst Gombrich procura deslocar a noção de imagem da representação da aparência exterior de um objeto, para outras instâncias de caracterização. Ele valoriza o que chama de relevância biológica, em detrimento da habitual verossimilhança mimética. A transformação de uma vara em um cavalinho de pau, por exemplo, não se baseia na imitação morfológica: a semelhança é estabelecida conceitualmente, a partir do ato de montar.

Carmen Miranda Uma Ópera da Imagem, de Laércio Redondo, em colaboração com Márcia Sá Cavalcante Schuback, é uma delicada metáfora poética de um Ícone internacional do século XX. Carmen foi uma das cantoras e atrizes mais filmadas e fotografadas de seu tempo. Lançou moda então e segue tendo sua imagem reproduzida e reprocessada tanto graficamente quanto em outros inúmeros produtos por todo o mundo.

Laércio introduz na fábrica de sonhos (a mesma que reduziu Carmen a uma imagem e, indiretamente, a levou à morte) seu cavalinho de pau (ou de Tróia). Sete móbiles – confeccionados com folhagens e frutas artificiais, lupas, cristais, contas, plumas, cores, reflexos, brilhos etc. – movimentam-se ao sabor do deslocamento de ar no espaço. A eles estão acoplados pequenos alto-falantes, que emitem o som de uma voz, lendo o texto poético-filosófico de Márcia Schuback sobre Carmen, especialmente escrito para o trabalho.

Nada aqui é ilustrativo ou caricatural. Tanto a matéria poética (invenção) quanto os materiais apropriados por Laércio estão comprometidos com dois traços essenciais ou conceituais do trabalho de Carmen Miranda. São eles: o movimento e as referências tropicais da fase norte-americana. Tais escolhas bloqueiam a canibalização da imagem física (ponto de encontro entre pessoa e clichê) de Carmen, significativamente ausente do engenho poético dessa Ópera da Imagem.

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